terça-feira, 20 de junho de 2017

Relatividades Paralelas

Quanto tempo entre o primeiro beijo incendiado a dentes e lábios cortados
E a última ejaculação no cu, quase por favor, só para quebrar as regras do catecismo,
Quanto tempo até que o pão não chegue e o vinho nunca suficiente para elevar
Muros invisíveis e estabelecer colónias longínquas em camas cujas línguas se desconhecem,
Quanto tempo até que o mundo todo um quarto demasiado pequeno e saturado,
Quanto tempo vai do amor eterno até ao nunca mais.

Montmartre

16.06.2017


João Bosco da Silva
Duas Cidades

Moras-me em duas cidades, no Porto, a que conheci entrando sala adentro
Levitando numas allstar velhas, a que senti dentina no lábio inferior,
A que desejei em versos e noites acendidas com mensagens tímidas lidas
Por namorados barbudos que te tinham de mão cheia e sotaques perfeitos,
Com quem bebias champanhe e fodias em carros pequenos,
A com quem sonhava Paris em águas-furtadas forrada com livros e sonhos,
Com quem jantei uma fome enorme vencida pelo medo da mesma vontade,
A outra mora em Paris, a que arrastei comigo e que nunca consegui apagar
Com a carne das outras, a que pinto com histórias que não vivi,
A dos sonhos recorrentes e do sorriso que já não me pertence, impossível,
A que ficou latejante na memória do sangue que se renova e nos afasta,
Que encontro numa reunião quântica na permanência das sinapses
Nas ruas onde estivemos em tempos separados, numas águas-furtadas
Onde alguém bebe o vinho da garrafa que não se abriu, enquanto outro 
De olhos fechados e em voz alta todas as palavras que não se trouxeram,
Na verdade não moras em duas cidades, és a ponte, em mim, entre a memória
E o sonho, o passado e a ausência, a ponte onde me és possível e presente.


Turku

20.06.2017


João Bosco da Silva

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Colheita

É mais fácil semear ilusões do que colher saltos de ponte
Que valem por todos os fracassos nos espaços cheios,
Atirar uma promessa com sabor a universo alternativo,
Numa dimensão ali ao lado, naquele passo que se deu no sentido inverso
Ao que nos trouxe aqui, a este lugar perfeito mas solitário,
Um passo com o peso de muitos génesis, no início houve a dúvida
Até que o pé se pousou e acabou por se multiplicar ad infinitum.

Montmartre

16.06.2017


João Bosco da Silva

domingo, 18 de junho de 2017

Rendezvous

Vem ter comigo à pressa que se perde, ao lado daquele medo que se esquece,
À preguiça que perdeu a força, anda antes que o Sol se ponha e a vida
Que os outros nos querem comece, já nos chega colher os desencontros
Que a vida nos plantou nos anos mais férteis, já chegaram as noites ao lado
De uma cor de olhos de tom quase, de sorrisos de ângulo certo só na sombra,
Nada como o que ficou na última despedida, anda antes que o Inverno acabe de cobrir
A cabeça de neve e cansaço, tu sabes onde, aqui entre esta palavra e o próximo passo.

Place de la Bastille

15.06.2017


João Bosco da Silva

sábado, 17 de junho de 2017

Mais Um Em Montmartre

Hoje está mais claro, mais uma vez, à noite, no café dos sonhos distantes
E do talento fossilizado em cordas e unhas hábeis de âmbar, o vinho é ao lado do mesmo
A companhia multiplica-se de olhos fechados, a tinta sobra no copo e os amigos
Sentem-se próximos à distância de um verso comum, um lugar coincidente
Em estações diferentes, trazem-me os trocos e não tenho como pagar esta bela ilusão,
Tenho tido Paris, tenho temido por Paris e Paris, mas nem em Lisboa passaram
Dez anos desde o desencontro onde os aviões nos levam para perto do esquecimento
E à beira do abismo onde a vida enfrenta o sonho, é noite e hoje está mais claro
No copo de vinho tinto, ainda longe do fundo, tão perto de nada cada instante
E nós convencidos que mais dez anos para o encontro que vale uma vida que lá não chegará.

Montmartre

14.06.2017


João Bosco da Silva

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Pesadelo na Rua Do Almada

Há um pesadelo que revisito com frequência, regresso à solidão de um quarto
De uma cidade que aprendi a amar pela ausência, sempre mais fácil amar-se assim,
Quando ninguém nos sopra o perfume azedo na nuca, regresso à solidão
E não sei se tenho a renda em atraso, para o saber tenho de descer ao café cheio
À hora do almoço e perguntar entre o cheiro a fritos, mas se mantiver a porta fechada
E não sacudir muito o pó, talvez ninguém dê por mim, uma leve dança de cortinas
Quando me levanto, ou o miar do gato abandonado que se deixou entrar na solidão,
Pouco mais incomodo a passagem dos dias além do caixilho de madeira cansada,
Regresso e a cidade sempre daquela cor entre o azul metálico coberto por um cinzento
Cansado de ferrugem e séculos de saudades fossilizadas em salitre, é um pesadelo
Em que ela está sempre presente no espaço que não ocupa, na mesa-de-cabeceira,
Num poema do livro de Alberto Caeiro, nos meus tomates, naquele esperma
Que era para ser o nosso pecado profundo, mas acaba embrulhado no fundo do caixote do lixo
Como e com uns poemas ridículos, na esperança de a ver subir a rua, só,
E sentir uma pedra no vidro da janela, onde nunca estou quando acordo.

10.06.2017

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 11 de junho de 2017

Savon de Marseille e Fósforos Azuis

Este sabão trazido de Nice, savon de Marseille, pur vegetal, de fabricação artesanal,
Que passo sobre a pele deste dia e que cobre o vapor de perfume
E me traz de volta àquelas peles de noites quentes, antes da vontade além cueca,
Aquelas emigrantes bem lavadas que regressavam à companhia dos galinheiros e das couves,
Aquelas peles demasiado brancas para o calor da procissão, deixando um rasto de perfume
Que se seguia atrás da cruz, este sabão laranja de jasmim que me traz aquelas manhãs
Em que as mulheres da aldeia se juntavam para fazer sabão azul em caixas de madeira
Forradas com plástico e na aldeia toda o cheiro da roupa lavada no estendal da eira
Com aquelas cuequinhas e cueconas a acender e apagar sonhos e vontades,
Este sabão para turista que me abre a porta de um banho à hora da sesta em verões
Com menos pêlos e lava tanto o sangue das mãos do que mata como do que salva
E me traz a caixa de fósforos de Paterson e todo o potencial das coisas pequenas
Para abrir portas e acender vidas na nossa, na nossa pele que todos tocam e nunca é a mesma.

Turku

10.06.2017


João Bosco da Silva

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Amor Universal

Estou contigo nos teus passos pelo inferno cinzento de Paris
Enquanto chove nos ossos do rei morto na banheira vazia,
Estou com as ondas do Pacífico na sua praia perfumada por mil charros
E sonhos de passeio em passeio, estou em San Pedro entre bandeirinhas
Vermelhas onde Bukowski jaz encerrado na eternidade
E de onde nunca mais despertará para mais um longo dia ressacado,
Resta-nos para sempre uma longa noite apagada,
Estou na ilusão dos que atravessam uma linha imaginária
Para o lado do sonho e acordam, estou em Espanha num caminho de terra
Onde cai um poeta e nasce uma lenda, estou com o búfalo que Hemingway
Abateu em África, naqueles anoiteceres lentos que se acendem em gotas
Pouco promissoras, estou no centro do centro de um império que desabou
E cujas embarcações apodreceram como os dentes que só têm fome
E pouco cuidado com o que trincam, estou com as pombas que cagam
Tanto no poeta como no marquês, estou com os saltos sem fuso horário
Na Earls Court esperando o fim de amores eternos que partem em aviões
Como em barcos e regressam ao cômodo esquecimento do lar,
Estou com Ginsberg cuja casa podia ser estar sentado num tronco farto e familiar,
Estou com o velho mestre tropeçando em haikus como jardins
Sobreviventes em Edo, que apesar de enjaulados entre aço e betão
Irradiam a paz que nunca se conquistará com a pregação da violência de néon,
Estou em casa em Agosto ouvindo a verdade dos grilos de Kurosawa,
Cuja recompensa dos heróis é uma vida heroica e uma morte mesma,
Como para todos, estou com o Sol que os conheceu a todos,
Mas mais que tudo, estou com quem nunca leu ou escreveu
Mais que o nome próprio, desenhado com esforço de quem tem mãos
Que rasgam a terra, sabendo que no fim o monte tomará novamente conta de tudo
E cobrirá os montículos de pedra ridículos que fomos amontoando para separarmos o inseparável.

Turku

06.06.2017


João Bosco da Silva

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Um Poema

Não tenta guardar qualquer momento, o poema, é como um olhar no espelho,
Cada verso é escrito com a areia que os dedos deixaram escapar,
Um poema bom é uma derrota bem conseguida, uma borboleta espetada num alfinete,
Nunca se captará o voo do tempo, só na ponta dos dedos se sente o que agora
Duro, para baixo, para baixo a tomar forma de uns seios, a passagem nuns lábios
Que nem os olhos um sorriso uma vez mais, é tão inútil, ressuscitar o que os mortos
Nos deixaram entre um esquecimento e outro e com isto acendem-se madrugadas,
Sacodem-se garrafas vazias numa vida que se extingue e só se dá pela ausência,
Os olhos deixam de ver quem nos aquece, procuram na distância míope
A ilusão que possa salvar a condenação certa, o poema mal toca na perdição,
Mal se acende e é todo falhas nos olhos dos especialistas de relâmpagos,
Demasiado barulho esta humidade reprimida e a terra continua a cobrir
Os olhos que nos mereciam, sempre os que se fecham a certeza de serem merecedores,
Um poema que tenha a pretensão de salvar o mundo é um poema inócuo,
Só aquele que cospe nos olhos da cegueira e mostra a luz demolidora do tempo
Justifica o mau uso da ponta dos dedos, o cansaço dos olhos na luz fraca,
A má-língua sem se importar com as más-línguas dos deuses que engordam ossos para a morte.

Turku

02-06-2017


João Bosco da Silva
Um Tropeço Nas Noites Frias

Não se regressará nunca àquelas três horas entre o salto e o medo,
Entre nós um aeroporto e tantas ilusões, lembras-te do gosto do tabaco naquela noite,
Fazia frio, era tão longe assim o que estava perto, sentia-se nos dentes de batom,
Sentia-se no tártaro de vaidade, à distância de duas portas batidas e alguma roupa
Desleixada a caminho do precipício ou da salvação, nunca saberemos,
Há sempre um táxi que nos salva da dor delico-doce das memórias que podíamos amargar,
Assim azedamos nos passos que engolimos, mais um pontapé ao lado do miocárdio,
Mais um adiar aquilo de que se abriu a mão no mar alto e por sorte
Um dia um tropeço na praia, ou uma areia no olho num dia de vento
Quando já mais não sopre na vida e tudo um acender de velas pela fome
Que não matamos e nos matou um pouco mais, a nós que já morremos tanto.

Turku

02.06.2017


João Bosco da Silva
Mão De Terra

Dava-te um destes dias, já que os arrasto pela madrugada como bêbados indesejados
E a vontade é de os deixar atrás de um caixote do lixo, com mais conteúdo de certeza,
Dava-te mais umas horas, das que gasto a gastar a paciência a roer os vidros da janela
Com os olhos à procura de uma vontade que me abra a porta e me leve para vida, carne,
Verdade, ando cansado de pintar sorrisos em olhos que só esperam terra, ando cansado,
Cansado do calor que o Sol promete mas a pele nem sente, cansado dos amigos que passam
Os dias só nas minhas saudades, cansado até do cansaço, nem força para mais uma desilusão,
Nem dentes para mais uma dentada de fome num mexilhão brindado com areia
A fazer de pérola, às vezes uma música como um tropeço desperta um sonho
Ou uma memória, às vezes alguém diz que isto lhe passa pelos olhos e até me sinto poeta,
Não como quando comecei a tropeçar em versos, isso já vai nos castanheiros que arderam,
Nos livros que acumulam pó pela fé, o Sol promete-se há horas no horizonte
E tu já te deixaste de madrugadas, dava-te este dia, sabes, este e muitos outros,
Tu ao menos tinhas fome, mas dá deus vida só a quem não a sente.

02.06.2017

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 22 de maio de 2017

À Beira Aura Com Li Po

À beira do rio, com a biblioteca atrás e o Li Po em frente, a passar como o rio,
Sem sede, seco como o papel pode ser seco, grupos de gaivotas e de gente
À volta de lixo e do que será, tudo o mesmo adiado, uma ilusão de utilidade
Neste universo sem guião ou manual, apesar da companhia do poeta
Distante ao quadrado, saco um cigarro, acendo-o para não me sentir tão só,
Para me aproximar uma pontinha do Sol com as minhas asas de pau,
No meio daquela algazarra verde de asas e cio de primavera,
Fumo-o sem vontade, com uma amargura seca, estarei ressacado,
Ou seria o rio que me levava tudo numa osmose invertida,
Acabo o cigarro, acabo o livro e das companhias que não foram minhas
Sobram as latas vazias que mais tarde alguém irá recolher
Para comprar mais uns maços de tabaco e pagar a dívida à biblioteca.

Turku

22.05.2017


João Bosco da Silva

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Outras Fomes

ao Paulo Azevedo

Servia-nos qualquer apeadeiro de carne, qualquer sombra de pregas,
Sorrisos vendidos a medo, dentes sem cuidado nas fomes dos outros,
Servia-nos qualquer momento escondido, qualquer distração de catecismo
E num cruzar de pernas o mundo todo perdido num embrulho rápido de papel higiénico,
Qualquer vazio era desculpa para mais uma cuspidela no coração,
No próprio também, mas haviam sempre escadas rolantes para nos levar
De volta sem vergonha, havia sempre uma janela de autocarro que a levava para longe,
Para onde se força o esquecimento, mesmo que ainda se lhe saiba a morada,
Servia-nos qualquer porta aberta nesta longa noite que se nos tranca
E nos aguça a vontade, tornando-a cada vez mais fina.

Turku

10.05.2017


João Bosco da Silva

quarta-feira, 3 de maio de 2017



10 Anos

“La memoria es el amor profundo
Entre las piedras y los rios.”
Pablo Javier Perez López

Água do rio da terra corria para o Douro, a mesma água que espelharia
Dali a uns meses mais quentes as uvas que fariam o vinho que agora bebo,
O rio corria e eu corria no estrangulamento estéril das tuas virilhas incansáveis,
As folhas das videiras lambiam toda a luz possível antes da noite desabar
No teu cabelo húmido antes da festa, e o vinho 10 anos depois numa
Garrafa estranha, entrando num corpo com um cansaço familiar,
O pescador mais atento ao ranger das molas do que à boia,
Quem diria que a rolha ao saltar um dia te acertasse numa dessas promessas
Possíveis que encerravas em ti desde que nasceste, a terra ao sol
Por lentes de rubi, como a chegada que esperavas sempre que a vontade
Ia além da prevista perfeição, a água tornar-se longínqua, estrangeira,
O vinho a fermentar em cabelos brancos e murros nas paredes,
Os avós todos alimentando a fome de pó que a memória não sopra,
Tantas vidas desencontradas em madrugadas de sonhos inúteis,
Hoje neste copo de porto, à distância de 10 gerações de folhas secas.

02.05.2017

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Sólo debes bajar de las montañas
si tienes esperanza de volver.
Pablo Javier Pérez López

Até além Marão

Florescem as giestas –
em todo lado
perfume amarelo.

Disculpe –
diz a pátria irmã
antes de se sentar.

Estendem as palmas
para receber o ouro –
as vinhas.

As primaveras no passeio
parecem
cães sarnentos.

Na autoestrada
um cão abandonado –
deus está de férias.

A Sakura no Japão
e as Maias em Portugal –
Primavera.




Casa de Campo

Os grilos acompanham
a dança
de fraga em fraga.

Numa toca entre as fragas
ladra um cãozinho
selvagem.

Põe-se o Sol
preguiçoso
o cuco canta.

Entre um cri
e outro cri
um passo na iluminação.

Cortado pelas linhas
de alta tensão
o vento geme.

Sobre os alicerces
da infância
a casa de campo.

Além as rosas
e eu descanso
junto às batateiras.

Já nem uma flor
na cerejeira –
a beleza é breve.

Cantam os pássaros
e os grilos –
não os que na barriga.

Diz de Bashô meu pai –
“fala de tudo
o que vê”.

As papoilas
não precisam de palavras
nas pétalas.

As metamorfoses
dos figos –
engole-se uma vespa.

Acende-se no horizonte
o ouro vermelho –
batem talheres nos pratos.

Batem as trindades
no coração de pó
de Cesário Verde.




Capital

Aqui torno
a cerveja
no que serei.

Nas minhas costas
o pombo canta
por mais uma ninhada.

Que sabe da vida
o homem
que não a consome?

De tractor no peito
desço o terramoto
até à partida das naus.

Onde te esconderás tu
passado
que não tive.

Desço até ao Comércio –
fico pendurado
num pinheiro.

Toca o sino de São Cristóvão –
levantam-se os pombos
e os turistas.

Braços abertos
religiões de cimento
e a verdade no rio.

Ouvem-se os ecos
da revolução –
partem ainda os filhos.

O rio do passado
está no coração
o do futuro ainda não.

Uns descolam
outros aterram –
satori no aeroporto.

Um sol mais perto
das nuvens
mata a sede.

Lisboa – Torre de Dona Chama – Lisboa
Abril 2017
João Bosco da Silva


sábado, 29 de abril de 2017

Até Ao Fundo Dourado

“Quero apenas o teu corpo quando o entregas”
Nuno Júdice


Quero apenas o teu corpo quando partes, quando a porta se fecha
E o regresso se torna tão possível quanto a morte,
Quero-te como os anos perdidos em que tudo parecia meu,
Mesmo assim caminhei de mãos vazias e bolsos cheios de buracos,
Quero-te como os lábios daqueles sorrisos anónimos que nunca
Se abrirão para mim e passam num número que logo esqueço
Até a uma periferia de uma cidade que também nunca será minha,
Quero as tuas palavras limpas e frias, sem a contaminação do perfume
Ou do sal, ou de um ângulo familiar de sol no teu cabelo,
Nunca teremos Paris, nem Porto, será sempre nosso o desencontro
E as ruas comuns e tempos que não se cruzam, táxis que nos levam,
Sempre nos afastam e até lhe damos gorjeta por tão bela distância,
Quero que todos os anos perdidos sejam quilómetros vazios
Às voltas no mesmo campo de trigo maduro, onde dormes dourada.

29.04.2017

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Casa de Campo

para o Carlos Fernandes,

Amigo, resta-nos a memória para resgatar a infância,
Aqueles pinheiros cortados ainda são uma cabana completa
Quando fechamos os olhos num dia quente de primavera,
Contudo relembramos sempre a sombra mesquinha
Que nos tornou a imaginação nesta imitação caquética
Apoiada nos anos do cabelo farto e consistente,
Resta-nos sujar as unhas demasiado curtas para encontrar
Um pouco daquela alma que realmente foi nossa
Antes de nos vendermos por imitações de sonhos,
Só porque mais à mão de a abrir e deixar tudo por uma amostra
De infância, um primeiro beijo, todas as primeiras fodas
Que se adiaram numa desilusão apressada de demolição cansada
Em quem se ia tropeçando nas pernas abertas,
Resta-nos agora a casa de campo, a miniatura que as sete moedas
Furadas nos permitem, por tão pouco vendemos a inocência,
Mas ainda conseguimos vê-la no assobiar do vento nas linhas de alta tensão
Por cima de mais um pouco de infância que se cumpre.

Turku

28.04.2017


João Bosco da Silva
Poeta Finlandesa

à Pauliina Haasjoki,

Depois de jantar tínhamos uma leitura de poesia, os pratos encheram-se duas vezes,
Carne, nem vê-la, depois é tão fácil um perder-se pelas ruas de Lisboa,
Tropeça-se numa cervejaria e o sabor da cerveja mais verdadeiro que qualquer poema,
Especialmente quando se respiram mortos iluminados por outras drogas,
A poeta finlandesa inclinada sobre o copo de cerveja como sobre uma flor,
Saltando de tema como um electrão excitado, fomos perdendo a linha do tempo,
E não se esperava que era de esperar que a leitura fosse encurtada para metade,
Quando chegamos já estavam no vinho e no bolo, o amigo poeta não nos censurou,
Mas via-se triste, a poeta finlandesa foi apresentada a grandes e a menores,
Medindo influências e outro contrabando, de fita métrica no bolso a tirar medida
A olho, ela mostrou-se imune ao brilho do vidro e do diamante,
O vestido dela esvoaçou quando lhe entregaram um copo de vinho verde,
Pensei que por virmos tarde já não tínhamos direito, os tugas cedem sempre a uma loira,
Aí sorriu-me como uma menina com um grande chupa-chupa na mão,
Nunca tendo lido dela um verso sequer, finalmente encontro uma poeta irmã.

28.04.2017

Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 27 de abril de 2017

1930 – Confissão

Só não me perdoo os pecados da infância, como aquela vez num intervalo da 3ª classe,
Em que rodeamos a miúda pobre da aldeia vizinha, cujo cabelo tinha sido cortado à naifada
Com uma tesoura de tosquia por causa dos piolhos, mijamos numa garrafa de plástico
E batemos-lhe até ela dar um gole de mijo de garoto, não me lembro de lhe ter batido,
Lembro-me que não chorou sequer e que engoliu com resignação de condenado
A sujidade das nossas almas pequenas, estes pecados nunca confessamos aos padres
E a hóstia lá ficava presa ao céu-da-boca, o único a que teremos direito,
Custa-me perdoar estes pecados vestidos de inocência e crueldade,
Mas não é o meu perdão que procuro, há sombras que justificam o meu abismo,
Se alguma vez leres isto perdoa-nos, mesmo que soubéssemos bem o que fazíamos.

Lisboa

24.04.2017


João Bosco da Silva

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Antes da Liberdade

Amanhã é dia de revolução e liberdade e aqui neste parque pintado de verde,
Suspiro por ter os dentes graníticos enterrados na frescura que renasce da loucura
Incendiária dos verões, passam pombos à pata, passam pessoas voando por dentro,
Outras enterradas nos escombros de sonhos que persistem em ser relíquia
Depois da sua impossibilidade confirmada, amanhã muitos irão festejar o que não têm,
Outros o que vampiricamente chupam aos outros, alguns dirão que para chegar a isto
Mais valia deixar andar e no fundo é assim que o mundo corre até cair num buraco fundo
De esquecimento, amanhã o parque continuará verde e pintado
E a bandeira será uma despedida baloiçante e tão familiar como um ente afastado.

Lisboa

24.04.2017


João Bosco da Silva

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Voyeur

Uma loira acende um cigarro na varanda, passa uma mulher com um colchão na cabeça,
O semáforo dos peões fica verde, ninguém atravessa, começa a cair uma neve desavergonhada,
Um par acaba as cervejas e trocam olhares nervosos de quem não sabe o que fazer com a boca desocupada,
O homem vai buscar mais duas bebidas e respira de alívio, entra um grupo de estudantes de arte
E sentam-se à janela a esboçar, uma delas com o cabelo azul-bebé, um deles olha para mim e sorri,
Vê-me de caneta na mão, uma loira regressa de fumar, está só, vai buscar um café, entra quem ela esperava,
Tem um canino encavalitado, não consegue agora conter os dentes em alvoroço, um dos pares vai-se embora,
Se calhar o nervosismo era aborrecimento dele, o pé finalmente parou, separam-se na rua sem beijo
E ela logo pega no telemóvel quando ele entra no carro, uma das estudantes está a deixar secar a tinta
Da ponta da caneta, está à espera que a mosca da inspiração lhe entre na boca, lembro-me de Bukowski,
De uns poemas de Bukowski, da visita num dia cinzento como este, já me começa a doer a mão,
A loira continua a fumar na varanda, a outra loira sorri de café nas mãos, a de cabelo azul continua
A procurar a mosca no ar, desta vez atravessaram no semáforo verde, agora uma miúda espera o próximo
Enquanto fala ao telemóvel e dois flocos de neve caem um de cada lado dela, a loira entra em casa,
A loira abre as pernas em direcção ao amigo, os estudantes de arte bocejam, menos dois que se engatam,
Descanso a mão para a punch line, a neve continua ridícula, os peões atravessam, dois miúdos sentam-se
Onde estava o par sem vontade, a loira acende a luz, muitos cigarros foram os últimos, muitos os primeiros,
Muitas passadeiras as últimas travesseias, muitas portas fechadas as últimas despedidas que se batem,
Muitos olhares que nunca mais neles, muitas vidas que se apagaram entre uma luz vermelha e verde,
No entanto, a vida continua, sempre e alguém se sentará nesta cadeira, ainda antes de ela arrefecer de mim.

Turku

14.04.2017


João Bosco da Silva