terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Mais Um Para O Lugar Do Rótulo Do Champô 

Podia contar-te dos dias frios que ignoro e das horas vazias 
Que ocupo com o estudo dos cheiros estranhos dos outros, 
Prefiro sentar-me com um café à espera da fome insuportável, 
Até está Sol, não é que isso interesse, não há luz que chegue 
Ao que está apagado, respira-se alguma clareza na distância branca, 
Contudo, tenho acordado muito depois do abrir dos olhos, 
Os cigarros parecem ter-se imposto nas engrenagens do tempo, 
Tenho saltado de Kawabata para Miller, diz muito do comprimento 
De onda do espaço onde morou uma alma ou dizem, 
Tenho Céline à espera desde o Verão e uma garrafa de sake 
Que fechada dura mais que qualquer amor, de ti ficou a masseira, 
As pérolas devem ter ido todas por água abaixo, 
Podia contar-te do Sol que raramente visita e aquece os tolos, 
Mas prefiro olhar para a chávena vazia e enchê-la com os meus, 
Enquanto espero que uma música nova me desperte a atenção 
Dos dedos agora azedos, rapidamente vinagram os sonhos abertos, 
Já te aborreci o suficiente, chegaste tão longe, para nada, 
Já viste, nem um murro no estômago, nem uma gota, nada, 
Agora levanta o cu, não te esqueças de o limpar, o dia mal começou. 

Turku 

20.02.2018 

João Bosco da Silva 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Pequeno-almoço 

Duas torradas finas e café instantâneo, com tão pouco se começa um dia, 
Com menos se começa uma vida, umas gotas apressadas de alívio, 
Se calhar nesse mesmo dia nascido de manteiga derretida, 
Na mesa as flores murcham, secam, apodrecem, lições de beleza 
E vida, acaba tudo em decadência e morto, todos os beijos saberão 
À mesma cinza e pó, não à cinza que ficava agarrada às torradas 
Feitas à lareira em cima das tenazes abertas em casa da avó, 
Não ao pó agarrado às amoras nos caminhos de verão, 
A noite poderá trazer mais um relâmpago indeciso, 
Ou somente a sua eternidade, mesmo que o dia tenha começado 
Apenas com duas torradas finas e café instantâneo. 

09.02.2018 

Turku 

João Bosco da Silva

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Henry Chinaski revisitado

Tinha chegado à capital e no dia seguinte seria a apresentacão
Do último livro no mesmo bar numa rua escura e estreita
Com um nome que ecoa a pior parte do colonialismo,
O hotel era melhor que o último e a área parecia ter menos
Prostitutas óbvias, um museu que não visitarei estava quase a paredes meias,
Posso ir aí, pareceu-me uma boa ideia, como quase sempre
À distância segura das mão vazias, também me custa dizer não,
Prefiro deixar afogar no tédio, que duvidem do que quiserem,
Às vezes é apenas falta de vontade ou paciência ou mesmo
Evitar tornar-me num trofeu ridículo para ocupar um silêncio
Qualquer numa saída com as amigas ou com o próximo caralho,
Ligam-me da recepcão, tem aqui uma senhora para o visitar,
Uma senhora, que senhora, arrependedo-me logo da pergunta estúpida,
Pode subir, o vestido mal respirava, as curvas perigosíssimas,
Como sorrisos maliciosos, mas o olhar, apagado, cansado,
Tudo me pareceu logo demasiado forçado, acender um fósforo à chuva,
Ofereci-lhe um Martini, eu bebia cansaço da longa viagem,
Não me lembro sequer do que falámos, estava concentrado em ignorar
Aquelas mamas que inpiravam e expiravam como um pulsar que evitava
Contra um programa qualquer que dava na televisão,
Aos poucos aproximava-se e eu sentia que ainda acabaria por saltar da ponte,
Depois, depois seria mais um mergulho, uma cabeçada numa pedra, fatal,
Ou não, eu que já meti a cabeça em tanta incerteza e tive sorte, ou pouco azar,
Para afastar aquele cheiro a carne quente, levanto-me e ofereço mais um Martini,
Bocejo para evitar retrair o prepúcio, que diria a amiga,
Que saberia, todas estas personagens da telenovela literária,
Eu que quero estar fora, que não pertenco sequer,
As palavras não me obrigam a isto, mais um cromo na caderneta,
Até que entre o cansaço quase que me adormeco ou finjo,
Quando ela se encosta ao meu peito, o que se quer afinal,
Carinho, a mão marcada nas nádegas, os dentes no pescoço,
A garganta cheia de um esperma com tanto amor quanto numa punheta,
Venci-a com o cansaço, no olhar apagado acendeu-se a desilusão,
Mas que promessas terei eu feito com um pode ser, com um sim,
Não sei, na apresentacão parecia que lhe tinha ejaculado na cara,
Atirado um lenço para se limpar e a tinha de seguida convidado a sair,
Como cheguei a fazer em manhãs geladas, noutra vida,
Noutros poemas, se calhar teria sido melhor, mas a verdade é que tinha sono.

02.01.2018

Turku

João Bosco da Silva
Sábados 

Nunca percebi o funcionamento dos Sábados, havia Sol e musgo nas unhas, 
Uma merenda obrigatória que nos chamava com voz de queijo e marmelada 
E lá tínhamos que descer desde as fragas, isto antes dos mundos pixelizados 
E da fome a cuequinhas molhadas, podia ir-se ao pão, o carteiro não deixava 
Nenhum postal do Brasil ou da França, os sinos não tocavam e no quiosque 
A certeza de uma banda-desenhada depois da mesada de mais uma semana 
Acumulada a saliva engolida nos intervalos, a vontade de catequese nenhuma, 
Agora poucos Sábados são no fim-de-semana, continuo a não perceber 
A sua utilidade, mais um dia, para levar todos os irmãos passados ao esquecimento 
Num último, já não vejo televisão, os filmes tornaram-se numa imitação confortável de vida, 
Repetições atrás de repetições, engrossando os contornos dos padrões, 
Nada de novo, se não se derrete manteiga num sofá ressacado, 
Prepara-se um domingo sem deus, como todos os dias, 
Nunca percebi o funcionamento da vida no geral, não só dos Sábados, 
Cheguei aqui por acumular incertezas, agora não passo de um saco cheio, 
Um buraco negro massivo, procurando a alma em mais um copo vazio. 

Turku 

03.02.2018 

João Bosco da Silva